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"Apavorada, eu disse que não ia conseguir. O mestre disse que o que eu aprendi, já era meu, não dava para voltar atrás e desaprender. Pediu, novamente, que eu o alcançasse, pois nada iria me acontecer, pois ele não deixaria." 

 

Texto por Gabriela Nascimento -  Janeiro de 2021

Projeto Mulheres Comunicativa Rio - Rio de Janeiro - BR.

Quem nasce pra isso, não tem jeito mesmo...

 

Meu nome é Gabriela, tenho 37 anos, e sou mãe solteira de um rapazinho de 5 meses.

Tenho déficit de atenção, sem hiperatividade, e isso sempre dificultou muito as coisas na minha vida. O diagnóstico tardio, aos 35, fez com que eu despertasse: não era lerda ou inútil como já me rotularam. Eu tinha uma condição de saúde que me impedia de obter algumas vitórias, mas que não inviabilizou outras.

 
Sou advogada, aprovada de primeira no exame da Ordem dos Advogados, e não fiz qualquer cursinho para isso. Conheço pessoas que eram “acima da média” que somente passaram após a quarta tentativa, e com o gasto de algumas centenas de dinheiros em cursos.

 Talvez devido ao hiperfoco do TDA, eu somente tenha necessitado de 22 dias de estudos.

             
Apesar de emocionante, essa aprovação na OAB foi uma das poucas vitórias de vida que tive. Tenho sucesso em 99% porcento das ações de clientes particulares ao longo desses 12 anos de carreira, mas, no entanto, não consigo ficar mais de um ano trabalhando em escritório de terceiros. Isso me angustiava, deprimia, e fez com que eu fosse taxada de incapaz, inclusive por mim mesma.

 Esse sentimento era tão forte, que me impedia de enxergar que, ao trabalhar sozinha, tive sucesso em quase todas as ações nas quais trabalhei.

 Imaginem, então, os pensamentos que me vieram à mente ao descobrir que seria mãe?

 Embora eu sonhasse em ter filhos desde os 4 anos de idade, entrei em desespero ao descobrir que estava grávida.

 

 O pai afirmou não ter condições financeiras ou emocionais para ter um filho agora, e disse que não queria. Terminei. Se não deseja o meu filho, não merece fazer parte da minha vida. Ele sumiu, e não fará falta.

 

Eu trabalhava numa imobiliária, numa função estressante, sem vínculo, contratada de forma fraudulenta, em área diversa da minha formação, e passei a ser tratada como pária no meu setor quando souberam da minha gestação. Fizeram de tudo para que me demitisse, mas eu não lutava somente por mim. Havia uma pessoa indefesa no meu ventre que precisaria de recursos após o parto para sobreviver.
 

 Moro com o meu pai, e, apesar de relutar muito durante a gravidez, Seu Santos mostra-se um avô zeloso e amoroso, sendo adorado pelo meu filho.

 Após o retorno da licença-maternidade, fui rebaixada de função, onde ganharia menos e teria dias ainda mais estressantes. Duas semanas após, fui contaminada com Covid-19 na empresa.

Fiquei apavorada, já que meu pai é grupo de risco, e o bebê também poderia ter problemas.

Isolei-me no quarto, e fiquei por duas semanas sem pegar meu filho no colo.
 

Quando tentei amamenta-lo após a cura, ele recusou, já acostumado com a mamadeira. O leite, outrora abundante, secou, e não consegui mais alimentar o meu filho naturalmente.

Durante o período de convalescência em casa, vários medos invadiam a minha mente, mas, o pior e mais constante deles, trazia uma verdade cruel: se eu morrer, aquele lugar terá sido o meu último emprego, e eu não terei sido feliz profissionalmente. Se eu morrer, meu filho será criado por outra pessoa, não por mim, e não receberá o amor que guardei por 33 anos para ele.

 

Não. Eu não podia permitir isso.
Quando voltei, trabalhei por mais três dias, até uma sexta.

Na segunda-feira seguinte, conversei durante horas com o meu pai, e chegamos à conclusão que eu não deveria prosseguir naquele lugar.


Por mais que tivéssemos que realizar cortes no orçamento, a minha saúde mental era mais importante do que o salário ínfimo recebido mensalmente, e sem qualquer garantia de estabilidade. Fui à empresa, entrei normalmente, tirei fotos das provas que ainda não tinha, levantei-me, e fui embora. Simples assim. Despedi-me das duas únicas pessoas com as quais tive proximidade, e não comuniquei sequer à gerente, minha maior carrasca. Assim, ela teria noção da importância que tinha na minha vida: nenhuma.

             
Em retaliação, ela não pagou os dias trabalhados por mim. Paciência. O juízo trabalhista resolverá isso. Desde então, tenho vivido somente para a minha família. Reconhecer novamente a rotina do meu filho, ajudar no seu desenvolvimento, acalmá-lo nos momentos de choro, brincar, rir, chorar de emoção a cada sorriso e a cada risada dele... Esses momentos nutrem a alma! É muito melhor acordar às três horas da manhã para amamentar e acalentar o Akin, do que às 8, para passar o dia sendo olhada com ódio, desprezo e a covardia de pessoas realmente incapazes de trabalhar fora dessa empresa decadente.
 

A convivência com o bebê me faz pensar muito. Não somente no longo, mas, principalmente, no curto prazo.  Penso se serei capaz de arcar com uma boa educação, saúde, cultura, se conseguirei fazê-lo feliz, apesar de eu mesma não ter sido.

Dessa forma, comecei a pensar o que poderia me fazer feliz hoje. Não digo financeiramente, mas, fiz uma lista de pequenas alegrias que seriam enormes desafios para mim. Um desses sonhos, e no topo dos mais temidos, era aprender a nadar.
Comecei a pesquisar escolas de natação procurando valores, e percebi como são caras... Recebi alguns retornos via whatsapp, todos frios e com valores exorbitantes, fora da minha realidade financeira.
 

Ocorre, no entanto, que recebi um áudio de um senhor – Renato – que se identificou como o professor e proprietário de uma das escolas com o valor mais em conta, e pediu mais informações sobre o futuro aluno. Ficamos trocando áudios, e acabei me interessando. Perguntei se havia aulas para adultos que não soubessem sequer boiar. Eu tive otite no jardim de infância, e fui proibida pelo otorrino de continuar com as aulas.

 
O professor disse que essa era a especialidade dele. Há mais de 30 anos dando aulas para todas as idades, ele, agora, ensina adultos com pânico de nadar, seja por algum trauma, ou por puro medo mesmo. Disse que essa tem sido a sua rotina há três anos, e que tem trazido muita satisfação pessoal. A perceber o meu interesse, o mestre convidou-me para uma aula experimental, sem qualquer compromisso, para que eu conhecesse a escola, e o método dele.

Aceitei. Procrastinei por uma semana (ah, o TDA...), e resolvi agendar a tal aula para a terça-feira seguinte.
 

Quase não dormi. Cheguei a ligar para cancelar. Sorte que ninguém atendeu.
Cheguei atrasada, porque o motorista não conseguia encontrar o local correto, e levei bronca pelo atraso de dez minutos.

 

A voz da bronca me pareceu familiar, e disse a ele que eu era a moça que havia conversado com ele uma semana antes.

Ele sorriu, e pediu que eu me arrumasse para iniciar a aula.

Quando cheguei à piscina, tremi. Ele viu o temor nos meus olhos, conversou comigo para me acalmar, e pediu que eu sentasse na beirada. Meu coração quase explodiu. O mestre pediu que eu confiasse nele, afirmando que nada iria me acontecer e que a piscina não era funda, que uma pessoa adulta fica em pé tranquilamente.
 

Pulei, segurando as mãos dele, temerosa, e pedi que não me deixasse morrer. Ele riu, e brincou comigo, e fazendo relaxar um pouco.

Os primeiros movimentos, extremamente desengonçados, demonstravam a completa falta de intimidade com a piscina. Pacientemente, o professor corrigia os movimentos, afirmando o quanto eu era corajosa, capaz, e comemorava cada pequena vitória.

Finalmente, ele se afastou, e pediu que eu fosse sozinha até ele, utilizando todo o conhecimento adquirido até ali.


Apavorada, eu disse que não ia conseguir. O mestre disse que o que eu aprendi, já era meu, não dava para voltar atrás e desaprender. Pediu, novamente, que eu o alcançasse, pois nada iria me acontecer, pois ele não deixaria.
 

Respirei profundamente por duas vezes, e fui. A princípio, de forma estabanada, depois, firme e confiante, o alcancei. E de novo. E de novo.

Não sei se você que me lê agora possui mais ou menos dificuldades em sua vida. A alegria que me invadia naquele momento fazia crer que meu coração iria explodir! Dei pequenos pulinhos de alegria, ignorando quão ridículo poderia parecer.

              Quis chorar, mas não consegui. Era impossível o choro com tanta felicidade, ainda que de emoção.
 

 Enquanto nadava - sim, nadava – em direção ao Renato, ouvi dois professores conversando:

              “- Aluna nova?

               - Aula experimental. Ela não sabia nem boiar.

               - Impressionante, né? Quem nasce pra isso, não tem jeito mesmo...”
 

Após uma hora de aula, surpreendi tanto o mestre quanto os demais presentes ao ponto de algumas partes do meu aprendizado terem sido filmadas.

Em sua sensibilidade, os profissionais imaginaram que fosse gostar de rever esse momento. Sim, eu estava nadando, e tive um desempenho incrível para alguém que não saía da parte rasa da piscina, e ficava acompanhada das crianças ao longo de 33 anos. 
 

No final, agradeci, e comprometi-me a retornar para realizar a matrícula.

Ao sair do complexo de natação, deparei-me com uma lua imensa, linda e brilhante. Inundada com essa luz energizante, repleta de gratidão, entendi a magnitude dessa vitória e o poder que ela tinha sobre mim nesse momento.

Se eu consegui isso, posso ensinar ao Akin que nada, nem ninguém, consegue impedir a realização dos sonhos de quem sabe que é capaz.

E você? Para o quê você nasceu?

Vamos juntas?
 

Gabriela Nascimento

Advogada, mãe, sonhadora

e nadadora em contínua evolução.

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